… não o que pensam que existe
O olho humano é uma coisa fantástica, no entanto para o mundo das artes, dos retratos e do desenho pode-se tornar um bocadinho tendencioso se não se praticar a parte do cérebro responsável por assimilar a informação dada pelos olhos.
Isto é muito comum nos aspirantes a artistas e mesmo em desenhadores que já têm bastante prática. A primeira vez que, na escola, a minha turma foi para a rua para desenhar a escola, partes do edíficio para nos habituarmos à perspectiva e às linhas rectas, eu comecei a reparar nos erros críticos dos meus colegas, em que desenhavam uma linha em que o ângulo era bastante diferente daquilo que realmente estava ali. Após uma inspecção mais cuidade no meu próprio desenho, notei que eu próprio também sofria um bocado do mesmo, apesar de ser em muito menor escala. Certas linhas estavam na verdade um pouco mais inclinadas, ou um pouco menos inclinadas do que aquilo que deveriam estar.
Mais tarde, o nosso professor lembrou-nos um aspecto importante que até hoje tem-me servido bastante bem:
Desenhem o que estão a ver, não o que pensam que estão a ver
Pois bem, esta expressão não é única no mundo, até é bastante comum nas artes do desenho. E a razão é porque muitas vezes as pessoas caem na tendência de desenharem aquilo que pensam que estão a ver, e não o que existe mesmo. Daí muitas vezes as linhas de perspectiva estarem muito inlinadas, ou pouco inclinadas, ou mesmo num ângulo completamente diferente. Um truque fácil para corrigir a perspectiva, aliada a esta têndencia que agora vai ser mais consciente para vocês espero eu, é agarrar no nosso lápis ou caneta, metê-lo na horizontal, e apontá-lo para a linha que tenha o ângulo, e observá-la. Com isso estamos a internalizar e a apercebermo-nos do ângulo melhor.
Também se pode usar uma técnica que já é antiga, que é simplesmente virar o desenho que estamos a tomar como referência ao contrário. É claro que isto não é possível se estivermos a desenhar a paisagem ao ar livre ou se estivermos a desenhar da nossa imaginação, mas se estivermos a desenhar de referência, a partir duma fotografia ou dum outro desenho, um bom truque é simplesmente virar essa fotografia ou desenho ao contrário e depois desenhar. Normalmente o resultado sai melhor do que se estivéssemos a desenhar a referência na posição certa.
Eis um exemplo. Se estivermos a desenhar um retrato a partir duma referência, uma pessoa com menos prática irá ter mais tendência para desenhar aquilo que acha que está a ver, e começa a desenhar os olhos, o nariz e etc à maneira dela. Pelo contrário, ao meter a referência de pernas para o ar, a familiaridade do retrato, ou da referência que estamos a usar, é nula, portanto o nosso cérebro acaba por ser mais objectivo no que toca a desenhar aquilo que estamos a ver, porque já não estamos a desenhar olhos ou narizes da maneira que nós pensamos que eles são, e sim linhas, simplesmente linhas.
Faça a seguinte experiência:
-
1 – Use uma fotografia qualquer, ou ao seu lado, ou um objecto, tanto faz, qualquer referência, seja um retrato, uma pessoa ou outro tipo qualquer de desenho. Use uma coisa simples e relativamente fácil. Depois de arranjar a referência, desenhe-a da maneira normal que costuma desenhar.
2 – Depois de desenhar da maneira normal que costuma desenhar, vire a referência de pernas para o ar. Se for um objecto, vire o objecto de pernas para o ar. Agora desenhe-o (de pernas para o ar). Não interesse que você não reconheça as formas, simplesmente desenha as linhas que vê.
Depois, compare os resultados. É provável que você chegue à conclusão que o desenho está mais fiél ao original quando você desenhou a referência de pernas para o ar.


